quarta-feira, 13 de junho de 2007

Vernissage cotidiana.


... que hoje em dia, uma pessoa olha, por minutos, atentamente para um quadro, apenas para que as outras pessoas vejam, que ela está olhando atentamente para um quadro.

Ladainha.


Duas amigas:

-...é mesmo. Em Brasília, todo mundo se conhece. Sabe aquela comunidade "Brasília tem três pessoas"? É bem isso...
-Ai ai...
-Mas e esse menino que você cumprimentou, o Pedro, conhece de onde?
-A, é uma longa história...
-Ele é amigo da minha prima. A gente já se falou algumas vezes.
-Nossa, meu sonho.
-Como assim?
-A, eu meio que gosto dele, sabe?
-Tá afim de dar uns pegas?
-Também... hehe, quem sabe... mas eu acho que é um pouco mais. Na verdade, eu gosto dele faz um tempo.
-Ih, tá apaixonada é? Já vi tudo... eu hein! Mas diz aí, desde quando isso?
-Desde a terceira série. Volte meia eu vejo umas coisas no orkut dele, presto atenção em algumas coisas que ele fala, e acho super legal!
-E você já disse algo que pensa pra ele?
-Nem pensar... ele deve achar fraco, e talvez nem goste...
-E quer que eu arranje? Ou sei lá, pelo menos fale com ele? Era bom que você conversasse com ele né? Numa boa...só se vive uma vez!
- Não!! Deus me livre! Morro de vergonha. Tá louca? Nem comenta nada.
-Ah, eu vou falar!
-Nossa, nem brinca... por favor. Promete que não vai falar nada?
-Bom... então tá. Até amanhã.
-Até!

Rafael Reche

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Nos olhos de quem não vê


Maldita seja a visão. Ela faz com que nos apaixonemos por belezas apenas físicas, e impede que nos apaixonemos por muitas belezas puras – belezas verdades - que transcendem os , também malditos, estereótipos que nos servem de parâmetro para limitar as possibilidades de felicidade à dois. Belezas puras, belezas verdades. Belezas de valor sublime, que ignoramos pelo simples fato de sermos tão (ir)racionais sobre o amor quanto as abelhas sobre uma flor : não importa serem doces ou amargas, saudáveis ou venenosas, procuram as mais vermelhas, mais macias, mais vistosas e mais belas. Dizem que a beleza está nos olhos de quem vê. Justamente o contrário. Ver é fator limitante. A beleza está nos olhos de quem não vê.

Rafael Reche

terça-feira, 1 de maio de 2007

Fauves

O pai dizia à filha
Que arte é coisa de puta
Que fosse morar na praça
Pra saber o que é luta

Chora o gozo e a gargalhada
Das pequenas batalhas travadas
Mas não se arrepende de nada
Da vida que assim levou

É de dor e de delílio
É dança que o corpo tem
É a arte do suspíro
Em que suspirou também

Foi mulher e foi feliz
Foi prazer e foi amada
Puta nada! Ela é artista
Que da luta dá risada.

Rafael Reche .´.

segunda-feira, 30 de abril de 2007

Fórmula aproximada




A paixão, de que tanto se fala e que tanto é almejada, nada mais é, do que coincidências que combinam um momento, uma necessidade, um lamento, uma saudade, um vazio de duas pessoas. Duas pessoas sentindo-se sozinhas, em carência emocional , não precisam ter mais que uma estética agradável e um assunto em comum pra se aproximarem. Daí, não é necessário nada mais que alguns poucos dias( menos de 7, contando apenas os dias em que houve contato) , para que se apaixonem. É fato que, se houver compatibilidade sexual e temperamental, as coisas podem exceder as espectativas. Muito raramente, ocorre que,além dessas duas terem as semelhanças consideradas primárias e que são o intróito da aproximação afetiva, elas possuem compatibilidade nos pontos de maior importância. Basta apenas tolerância nos pontos mínimos, e com o tempo e o trabalho diário nesses pequenos pontos, a tolerância se encarrega de amadurecer a relação. Não deixe perder a magia, e faça algo inesperado de vez em quando. Conceitua-se o dito amor, da evolução de uma paixonite.

Flor do cerrado

Todo fim de ano é fim de mundo e todo fim de mundo
É tudo que já está no ar, tudo que já está
Todo ano é bom todo mundo é fim, (...)
Todo mundo sabe e você sabe que a cidade vai sumir por debaixo do mar
É a cidade que vai avançar, e não o mar, você não vê
Mas da próxima vez que eu for a Brasília
Eu trago uma flor do cerrado pra você (...)
Tem que ter um jeito e vai dar certo e Zé me diz
Que ninguém vai precisar morrer para ser

sábado, 21 de abril de 2007

Poison .´.


Beba com moderação
Aquilo que você quer ver
Do jeito que sabe que não terá
Aquilo que você quer ouvir
E sabe que não sentirá
" sereia que canta,destemida Yara
Agua e folha da Amazonia"
Aquilo que você quer amar
E que nunca amará
Porque se conseguir, tão logo,
tão logo desistirá.
Beba do poço sem fundo da fonte sem fim
Que é doce veneno, pr´os lábios carmim
É sangue pulsando, dói e faz bem.
EXPERIMENTA! Experimenta. experimenta?

segunda-feira, 16 de abril de 2007

Ar-te .


O que é uma vida de artista
No mercado comum da vida humana
Um projeto de sonho inocente
Eu talvez não te veja esta semana
Pescador quando tece sua rede
Jogador quando joga a sua sorte
Cada um que conhece sua sede
É artista da vida ou da morte(...)
Vida de artista - de Sueli Costa e Abel Silva.

terça-feira, 10 de abril de 2007

Logo.


"Vai"-disse- "Antes que o belo astro do dia
Sete vezes penetre nesse espaço,
Que o Áries cobre na celeste via"
"Tão boa opinião com fundo traço
Melhor será na tua fronte impressa
Do que de outro por voz a cada passo
Se o Sumo Querer ordem não cessa"


Canto VII ,45-46,Divina Comédia,Dante Alighieri.

domingo, 8 de abril de 2007

Cristal oco


De que valem as taças cristal ouro, que são, na verdade, copos vazios?

quinta-feira, 5 de abril de 2007

Cá entre nós,Judas.




Já concordei: "O dinheiro não é tudo". Já discordei: "Tudo é a falta de dinheiro". E duvido: é fundamental mesmo muito dinheiro? São fundamentais essas quantias imensas que, em vez de servirem a nossa vida, nos obrigam a trabalhar por elas? Quais são os bens materiais mínimos que Santo Agostinho apregoava como fundamentais para exercer as virtudes do espírito? O miserável, é evidente, não pode colocar um calção de banho, como eu faço, e caminhar na praia diariamente, como uma criança feliz. Mas o milionário igualmente não pode. No balanço da felicidade humana, quanto vale uma amizade? Uma fé? Uma reputação? Aqui entre nós, Judas, 30 dinheiros foi mesmo um bom preço?

domingo, 1 de abril de 2007

Cobertor


Acalanto do pseudo

Na brisa fria hodierna
Senti o teu perfume
Porque eu fiz teu perfeume
Assim como te fizeram pra mim

É doce, porque me impulsiona
Minha força motriz é o amor
Um dia será a de todo mundo
Ou o mundo não será

Não é reflexo de minha falta
Pois não é vista em fonte de Narciso
É desejo de ser Arlequim
E não mais pierrô transido

Talvez seja máscara de meu desterro ,
Talvez fruto da imaginação
É quase que aconchego,
Eu diria: saudável evasão

É o motivo mais emotivo,
Que me garante segurança
Que me afasta do devaneio,
E que me traz esperança

Se for lúdico escapismo,
Deixe-me ser fugitivo
Mas por favor, não me acorde,
Deste sonho de criança

Rafael Reche .´.


*Este texto foi publicado em A Utopia das Palavras, volume seis.
O escreví por volta de Abril de 2006, e tenho por ele muito apreço.